Recordando
Neste espaço irás encontrar as fotos que mensalmente um ou mais especialistas nos propuserem. Com o intuito de recordar os momentos que uma ou mais pessoas viveram ou vivem. Espera-se que seja um local de interactividade e contacto permanente de todos com todos, através desta maravilhosa arte, que é a fotografia.




6175 e Fur. Júlio Ourives (Nancatari - Moçambique)
1974 06 01
6 de Maio de 1974
Surgem os primeiros raios solares sobre a cidade de Nampula no norte de um território chamado Moçambique. Treze homens tomam lugar nas cadeiras de um avião militar chamado “Dakota”, mais conhecido por “Flecha de Prata” e que dava pelo nome “6175” (pertencia à Esquadra 801 sediada em Lourenço Marques) e estava estacionado na placa do AM52.
Esses treze homens eram sete adidos militares acreditados em Portugal (Alfredo César e Roberto França Domingues, brasileiros; Peter Blackley e Alexander Thomson, americanos; o inglês Thomas Binney; Edward Grubbs, alemão e o sul-africano William Kempen), um homem do Exército português que acompanhava os primeiros (alferes Alves) e para completar o número havia cinco homens, de várias idades, com várias funções operacionais, para as quais tinham diversas formações técnicas e académicas que faziam deles Especiais representantes de um País e da Força Aérea Portuguesa que os tinha preparado para “isso” e todas as missões mais que surgissem. Independentemente dos seus credos, crenças e convicções era um grupo do qual me orgulho hoje e sempre e que jamais esquecerei: José Luís Assunção (comandante de bordo), Carlos Cruz Costa (co-piloto) Carlos Roma Pereira (1º mecânico), João Pinheiro (radiotelegrafista) e Casimiro Agostinho (2º mecânico).
Naquele dia visitámos Montepuez, Mueda, Nangade (norte de Moçambique). Preparámo-nos para regressar a Nampula. Por causa de um “coiso” chamado SAM7-Strella, fomos para os dez mil pés acima do solo tentando também voar sobre nuvens de chuva que eram já bastantes e fugir ao alcance do “coiso”. As nuvens ganham força, os cumulonimbos empertigam-se e obrigam a desviar um pouco a rota em vez de passarmos à vertical do AM51 (Mueda).
Íamos atentos, embalados pelo som redondo dos dois motores que nos levavam para um descanso merecido, embora a turbulência não nos deixasse “adormecer”… eis que… chocámos com um barulho enorme, estranho, quase irreal, que nos abanou de forma estúpida, quebrando a monotonia e nos colocou como vítimas de convulsões metálicas de um pássaro ferido na asa direita, que se inclinava para esse lado sem conseguir equilibrar-se. Vou à zona dos passageiros e vejo uma cortina de uma janela esvoaçar presa apenas pela parte de cima: foi ela que estando presa em cima e em baixo evitou que Edward Grubbs fosse ferido por estilhaços da janela; vejo o motor a arder, vários orifícios sobre a asa por onde sai combustível, soltam-se chapas da parte inferior da asa direita e… mil minutos… mil saberes… mil coragens (principalmente do comandante de bordo) e… vamos para Mueda! Impossível! Aeródromo abaixo dos mínimos, sob chuva torrencial! Alternativa: há um espaço limpo em Nancatari (quartel de uma companhia do Exército)!!! E fomos. Tudo muito difícil, muito torto, tudo muito complicado… muito incerto… e paradoxalmente muito seguro…
Chão!!! Tudo violento mas tudo pára! Saio do avião e reentro tês vezes… uma imagem difusa está parada no chão em frente à porta do avião quase desde a primeira vez… mil lágrimas brotam enquanto oiço: João!! Volto-me e… aquele vulto de há pouco não era mais do que um amigo de infância que naquele mesmo dia recebera um “bate estradas” em que eu lhe dizia não ser fácil encontrarmo-nos a não ser nas férias (que devíamos conciliar) porque ele estava num sítio onde o Dakota não ía…!!! Mais mil lágrimas… abraços por uma vida… param de repente, quando dois Allouette III se fazem ouvir e ‘sentir’: os “nossos” chegaram! Eram o tenente Araújo e o alferes Palma! Vamos para Mueda… o tenente Adelino Cardoso abre-nos a porta do seu Noratlas e leva-nos para Nampula…! A noite recebe-nos naquela linda cidade que jamais esquecerei…!
Acho que também devo agradecer reconhecido ao major Afonso (comandante do AM51).
Não me levem a mal o tempo que vos roubei. Espero que todos saibam sempre ser “Especiais”. O hoje foi o amanhã do ontem. O amanhã será maior se não esquecermos o ontem.
Que Deus nos dê a calma para chorarmos de felicidade recordando termos vivido com gente tão boa como todos os que mencionei e os que são a moldura de quadro tão belo!
Também para ti, Zé Assunção, que no dia 28 de Setembro de 1999 depois de um solavanco como se estivesses a descolar de uma pista de terra batida, levantaste voo... espero que estejas em voo de cruzeiro, com piloto automático, cofiando o bigodinho enquanto olhas sereno o calmo horizonte sem fim… calmo como tantos que vimos, juntos, sobre essas terras lindas que jamais esqueceremos…
A ti e a todos os que te acompanham: Bem-haja camaradas… Até qualquer dia!!!
Aos que me lêem: Obrigado pela paciência e até sempre!
João Pinheiro
OPCOM – 2ª 1971
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